Diamante com 910 quilates descoberto no Lesotho

O reino do Lesotho, um pequeno enclave com pouco mais de 30 mil km2 dentro da África do Sul, é famoso pela produção de diamantes de grande dimensão e no passado dia 12 de Janeiro de 2018 mais uma gema se juntou à já significativa lista de diamantes acima de 100 quilates que ocorrem no país.


O grande diamante do tipo IIa com 910 quilates, o quinto maior alguma vez descoberto e o maior encontrado no Lesotho.
Os diamantes foram descobertos no Lesotho em 1957 e, passados alguns anos, iniciou-se a extração deste minério nas duas chaminés quimberlíticas produtivas, Letšeng-la-Terai (ou simplesmente Letseng) e Satelite, que foram produzindo quantidades muito pequenas de diamantes, apesar de pedras grandes aparecerem, tal como o enorme Lesotho Brown com 601,26 quilates descoberto em 1967. Na década de 1980 quase não houve produção e no final dos anos 1990 a Letseng Diamonds Pty adquire os direitos de exploração, iniciando-se em 2003 uma nova fase de produção com infra-estruturas modernas para a optimização dos processos nas duas chaminés quimberlíticas diamantíferas, assim como em zonas de aluvião circundantes.

A cerca de 3000 de altitude, executam-se as operações de exploração de diamantes na mina de Letseng.

A mina de Letšeng-la-Terai, situada a mais de 3000 de altitude nas montanhas Maluti e já com uma cratera de 120 metros de profundidade, é a mais importante apesar de ter baixo teor de diamantes (cerca de 1,9 quilates por cada 100 toneladas de minério) e de apresentar produção anual modesta. De acordo com dados oficiais, o Lesotho produziu em 2016 apenas cerca de 342.000 quilates de diamantes, mais 38.000 do que em 2015, que quando comparados com os mais de 20,5 milhões de quilates do Botswana, constituem uma cifra pequena. A fama da mina decorre, todavia, das gemas de grande qualidade e tamanho apreciável acima de 100 ct que daqui procedem, em especial diamantes do tipo IIa, ou seja, diamantes sem impurezas de azoto, ou nitrogénio, detectáveis por FTIR (< 5 ppm) e que, actualmente, é responsável por cerca de 1/4 da produção mundial deste tipo de diamantes. Os cientistas chamam a estes diamantes “CLIPPIR” (ver em baixo). É deste tipo de pedras que procedem os grandes diamantes incolores e muito limpos de alta qualidade, classificados como cor D e pureza Flawless ou Internally Flawless que atingem grandes valores de mercado. Comparando estatísticas, em 2016 o valor médio de preço por quilate dos diamantes produzidos no Botswana foi de $138,82/ct e no Lesotho $1065,88/ct, quase 10 vezes mais, revelando a excelência dos poucos diamantes produzidos neste pequeno reino africano.

Dumpers gigantes removem o minério onde, a cada 100 toneladas, se encontra em média 1,9 ct de diamante


Exemplos de diamantes importantes originários da mina de Letseng contam com o já referido Lesotho Brown, com 601 ct (1967), o Lesotho Promise com 603 ct (2006), o Letšeng Legacy com 493 ct (2007), o Light of Letšeng com 478 ct (2008), o Letšeng Star com 550 ct (2011) e, por fim, o Letšeng Destiny com 314 ct e Letšeng Dynasty com 357 ct (ambos em 2015). Tirando o primeiro que era castanho, todos deram origem a diamantes lapidados de cor D-IF ou FL, tendo alguns mais de 100 quilates com valores de mercado muito significativos.

No passado dia 12 de Janeiro mais um diamante se junta a este rol de pedras de grande calibre, desta vez com uns impressionantes 910 quilates, sendo o maior diamante alguma vez recuperado no país e o quinto maior diamante alguma vez descoberto, atrás do Cullinan (3106,75 ct), Lesedi la Rona (1109 ct), Excelsior (995,20 ct) e Estrela da Serra Leoa (968,9  ct). Foi classificado como do tipo IIa, o que prevê um ou mais diamantes lapidados de cor D e pureza Flawless ou Internally Flawless, e dimensões na ordem das centenas de quilates. Ainda recentemente, o grande diamante “4 de Fevereiro” com 404,20 quilates descoberto em 2016 na mina de Lulo, Angola, e lapidado pela De Grisogono num diamante D-FL em talhe esmeralda com 163,41 ct, posteriormente engastado num colar com diamantes e esmeraldas apelidado “The Art of De Grisogono - Creation 1”, foi vendido na Christie’s de Genebra em Novembro de 2017 por $33,7 milhões, um recorde à data para um diamante incolor em leilão.



Falou-se atrás de diamantes CLIPPIR e este é o acrónimo que designa diamantes do tipo IIa de grandes dimensões com origem em regiões profundas do manto, entre 360 e 750 km de profundidade, e que cristalizaram em metal líquido. O acrónimo significa Cullinan-like (semelhantes ao diamante Cullinan), large (de grandes dimensões), inclusion-poor (quase sem inclusões), pure (quimicamente puros, do tipo IIa), irregularly shaped (hábito cristalino irregular), resorbed (com zonas reabsorvidas no cristal). Este tipo de diamantes é não só importante para a joalharia, mas também para a geologia pois contém informações relevantes sobre o interior da Terra, designadamente em inclusões que se encontram, em regra, à superfície dos cristais (como, aliás, se consegue ver na imagem do gigante de 910 quilates agora descoberto).

O grande diamante agora descoberto é designado de CLIPPIR pelos cientistas e podem aqui observar-se as inclusões escuras de grande valor científico, pois são testemunhos do interior profundo do planeta.



Imagens © Letseng Diamonds Pty

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