Esmeraldas para Fauré, Rubis para Stravinsky e Diamantes para Tchaikovsky

Alfinete “Danseuse Espagnole”  de 1941
© Van Cleef & Arpels
A joalharia é rica em invocações e alusões a outras formas de arte de que, por exemplo, a arquitectura é um bem explorado caso, como recentemente se abordou na exposição “A Arquitectura Imaginária” no Museu Nacional de Arte Antiga (Dez. 2012 a Mar. 2013).
Todavia, tirando na pintura, a invocação da joalharia noutras formas de expressão artística é bem mais escassa. Na música, em particular, existem óbvias alusões a pedras, metais e jóias nas letras cantadas, mas nas obras completas em que a joalharia assuma um papel de relevo na estética há, pelo menos, uma que sobressai: o bailado “Jewels” de George Balanchine.







São várias ligações que se podem estabelecer entre o mundo da joalharia e o mundo da música. Porventura entre as mais óbvias, e porventura de menção incontornável, está a icónica “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, canção interpretada por Marilyn Monroe no filme musical “Os Homens Preferem as Louras”, de Howard Hawks, estreado em 1953. Também é famoso o anel de rubi que foi empenhado para levar a miúda ao concerto que havia no Rivoli da canção “Paixão (Anel de Rubi segundo Nicolau da Viola), tema editado em 1990 no quinto disco de estúdio de Rui Veloso, “Mingos & Os Samurais” que foi sêxtupla platina. Ainda, do mesmo músico, refira-se a letra de “O Ourives Mestre João” de Carlos Tê, canção que faz parte do sexto álbum do pai do rock português “Auto da Pimenta”, lançado em 1991, e que conta a história de Ian Vansteigoltist, um judeu, avaliador da Casa da Índia e autor de uma das mais famosas obras da ourivesaria em Portugal, o relicário da Rainha D. Leonor (ca. 1510) actualmente em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga.

Com uma substância bem mais interessante, nos anos 60 materializou-se a ideia de se produzir um bailado em que a joalharia, e em particular algumas gemas, tivesse um papel estético nuclear em harmonia com a música. A ideia começou a ganhar corpo por um mero acaso que juntou Claude Arpels (1911-1990), sobrinho do fundador da centenária Casa francesa dos alvores do séc. XX Van Cleef & Arpels com sede na mítica Place Vêndome em Paris, e Georges Balanchine (1904-1983), o famoso coreógrafo natural de São Petersburgo e co-fundador do New York City Ballet, tido como das expressões mais relevantes do bailado contemporâneo mundial. O encontro foi em Nova Iorque, cidade para onde Balanchine se havia mudado desde 1933 e onde Claude Arpels vivia desde 1939, período em que a Casa se expandia para a América com a sua loja da 5ª Avenida. Logo se evidenciaram grandes cumplicidades artísticas entre eles, sendo ambos, também, confessos apaixonados por pedras preciosas. Deste relacionamento, que se foi consolidando, resultou o guião de um bailado onde os figurinos, ou seja, para todos os efeitos as bailarinas, eram jóias, curiosamente à semelhança, aliás, dos famosos alfinetes da Casa Van Cleef & Arpels (ver em baixo).
George Balanchine era conhecido pelos seus superiores conhecimentos musicais, tendo sido percursor do bailado abstracto onde o binómio música e movimento desempenhava um papel mais importante do que a cenografia ou figurinos. Este bailado que a sua companhia, a New York City Ballet, estreou em Abril de 1967 no New York State Theater, desenrola-se em três movimentos, cada um visualmente dedicado a uma gema e, a essa gema, uma associação a um compositor. Assim, no primeiro, as esmeraldas são dançadas ao som de extractos das obras Pelléas et Méllisade e Shylock de Georges Fauré (1845-1924), compositor francês mais conhecido pelo seu curto, mas emblemático, Requiem em ré menor. No segundo movimento, os rubis dão corpo ao som do Capriccio para piano e Orchestra do russo Igor Stravinsky (1882-1971), um dos preferidos de coreógrafo, e, no terceiro e último, os diamantes e o seu brilho materializam a coreografia em torno da Sinfonia nº 3, em Dó maior, do também russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893). Sem qualquer tipo de enredo, este bailado é um interessante desafio onde três estilos musicais completamente diferentes são interpretados de forma também diversa, sendo o movimento enriquecido visualmente no palco com as três cores propostas para cada um dos actos.

Leta Biasucci e Jonathan Porreta, do Pacific Northwest Ballet, no acto Rubis
ao som de Stravinsky do bailado Jewels de Balanchine. Foto Angela Sterling

Com um papel crucial nesta primeira performance esteve Barbara Karinska (1886-1983), a aclamada figurinista de origem ucraniana que, em 1948, foi galardoada com um Óscar da Academia pelo seu desempenho no guarda-roupa do filme Joan of Arc, de Victor Fleming. A indumentária de palco dos bailarinos foi desenhada para cada acto, com saias de tule verdes abaixo do joelho para as esmeraldas, vestidos muito curtos vermelhos para os rubis e, para os diamantes, a clássica saia tutu branca. Segundo Claude Arpels, estes figurinos representavam de forma sublime o brilho, cores e vida das pedras preciosas e jóias, sendo por si só verdadeiras jóias vivas. Este bailado tornou-se verdadeiramente muito popular, sendo apresentado e reinterpretado um pouco por todo o Mundo e por diversas companhias de bailado.


As Bailarinas Van Cleef & Arpels

Três bailarinas da colecção Ballet Précieux em ouro branco com diamantes em talhe rosa, rubis e esmeraldas, recuperando os figurinos do bailado de Belanchine ©  Van Cleef & Arpels

Estas peças icónicas para a Casa tiveram o seu debute no início dos anos 40, nos Estados Unidos da América, por mão do designer Maurice Duvalet, John Rubel, o ourives chefe e Louis Arpels, irmão do fundador da firma e tio de Claude Arpels, que tinha uma manifesta paixão pela dança clássica e pela ópera. Rubis, esmeraldas e diamantes eram engastados em platina e davam cor e forma a pequenas bailarinas desenhadas em diferentes posições de dança clássica. A Casa mãe, na Place Vêndome em Paris, replicou o conceito para o mercado europeu, mas o metal predominante era o ouro amarelo e não a platina. A peça que aqui se ilustra, em ouro com rubis, foi feita em circa 1945 e é provavelmente de fabrico parisiense, já a imagem de abertura deste ensaio é manufactura norte-americana, datada de 1941, e, aliás, dos primeiros exemplares de que há registo.

Alfinete Bailarina em ouro e rubis,
ca. 1945, Van Cleef & Arpels
© Sotheby’s

Em 2007 a Van Cleef & Arpels, em colaboração com o London Royal Ballet, celebrou 40º aniversário da estreia do bailado “Jewels” com o lançamento da sua colecção de alta-joalharia Ballet Précieux, sendo as esmeraldas, os rubis e os diamantes, tal como no ballet, as pedras mais importantes aqui utilizadas.

Mais recentemente, a Casa desafia o bailarino e coreógrafo francês Benjamin Millepied, actual director do Ballet de l’Opéra de Paris que se celebrizou pela sua colaboração no filme “Black Swan”, de Darren Aronofsky em 2010, a recriar o bailado “Jewels” de Balanchine. Daqui resultou uma triologia, denominda “Gems”, que o colectivo LA Dance Project estreou em 2013 em Paris com a sua primeira parte “Reflections”. Esta revisitação à obra de Georges Balanchine apresenta uma estética marcadamente contemporânea e conta com a colaboração de artistas de outras disciplinas, nomeadamente no campo da cenografia, onde se destaca a participação do famoso compositor norte-americano Phillip Glass que é o autor da música da segunda parte da triologia, com o título “Hearts & Arrows”. Temas como String Quartet No. 3 da banda sonora que o compositor criou para o filme “Mishima” de Paul Shrader, em 1985, aqui interpretado pelo Kronos Quartet, é um exemplo desta colaboração entre artistas de vanguarda e o universo da alta-joalharia que evoca e celebra o nome de George Balanchine.


in "Espiral do Tempo", no. 53, pp. 150-153 (Dez. 2015)

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